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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Com consentimento da sociedade, por Fernanda Monteiro



Bom, eu achei que o meu texto de reestreia no Vestiário seria uma coisa mais light, algo sobre “que diabos a Xuxa ainda quer na televisão” ou “o valor popularesco do Esquenta, de Regina Casé”, mas não. Fica para a próxima. Tão cedo e já é hora de “Big Brother”.



Eu bem tinha me disposto a me envolver cada vez menos com a programação televisiva, principalmente no que diz respeito a tudo que tenha no mínimo uma década ininterrupta no ar – e não acredito que seja esse episódio que me fará mudar de ideia, mas, ao contrário do que muitos pensam, merece sim atenção. Gostemos dele ou não, é um programa massivamente assistido, em horário nobre. Digno ou não de nossa atenção ou respeito, é através dele (embora contra a sua vontade) que está se dando uma importante (mas não única) chance de levantar mais questões sobre o machismo, sobre abuso, sobre direitos e sobre informação.

E vou pular a introdução ao tema porque todos já estão carecas de saber.

A chuva de argumentos desqualificadores do caso é tão espantosa, que primeiro dá vontade de rir, depois de chorar. Na coluna dos mais nojentos está o cordão dos “quem mandou beber demais?”, “se ela não queria, por que deixou?”, “impossível não sentir a p****a do negão entrando” e, PASMEM!, “queria ver o que as menininhas iam dizer se fosse o Jonas na cama com ela”.

Essas pessoas não sabem com o quê estão brincando. Na boa, é de arrepiar que alguém ainda considere a mulher responsável por qualquer tipo de abuso sexual sofrido; que uma pessoa desacordada, sob efeito de muito álcool seja mesmo capaz de discernir o que acontece ao seu redor; ou que uma bulinação sem consentimento seria menos desagradável se cometida por um loiro-de-olhos-claros. BALDE! E o mais chocante é que a maioria dessas pessoas ou já passou por uma situação alcoólica semelhante, ou já precisou ajudar alguém nessa situação. Mas é na televisão, é no BBB, eles estão lá para dar show mesmo, então não merece nossa indignação.

Depois de ler várias coisas sobre isso durante o dia, foi inevitável me deparar com muitos textos que citavam o Código Penal e os termos ora específicos, ora vagos, que qualificam ou não estupro, abuso de incapaz, etc e tal, e sobre o quais eu sou suficientemente responsável para não me aprofundar, por não entender do riscado.

Eu só acho que o vídeo é muito claro com relação ao fato de que a moça está inconsciente e não esboça nenhuma interação com o rapaz; e que, depois da explosão do axé music nos anos 90, é impossível alguém não saber o que significa esse movimento de vai-e-vem dos quadris, essa sensualização pélvica executada tão enfaticamente no vídeo. O ato, dentro das condições expostas, é no mínimo desrespeitoso e, justamente por deixar tantas brechas, está sendo conduzido de maneira absurda pela direção do programa (o que não chega a surpreender, mas é preciso ressaltar).

Boninho chama para prestar esclarecimento justamente a pessoa que estava inconsciente, e quando ela diz que “não rolou sexo, e tudo que rolou foi consensual” está se referindo exclusiva e obviamente à parte que ela lembra. Tão logo sai do confessionário, a própria mostra-se surpresa e insegura quanto aos questionamentos e vai perguntar ao próprio Daniel o que foi que rolou, ao que ele responde “dois estalinhos e uma alisada”.

É aí que eu quero chegar: não é isso que o vídeo mostra, Daniel está mentindo e não foi sequer chamado ao confessionário, logo ele que era a parte consciente na situação. Além do mais, pediu que Monique não ficasse comentando sobre o assunto com os outros participantes e usou a tática brilhante da psicologia reversa: eu fico de mimimi dizendo que a edição vai me queimar e, só para não me dar razão, a edição não me queima.

O vídeo é retirado do ar e o Mister B. pretende encerrar o assunto com a premissa de que a maior interessada no assunto é Monique e, se ela não se queixou, ninguém pode se queixar. Mas ela não se lembra. E ninguém vai mostrar o vídeo a ela. E não será feito nenhum exame.

E ninguém pode falar nada porque o BBB é a Worderland da baixaria e não merece indignação nenhuma porque quem está lá é para isso mesmo. É igual ao índio que dormiu no ponto do ônibus para isso mesmo. É igual à prostituta que está na rua para isso mesmo. É igual à moça que usa roupa curta para isso mesmo.

O mais irônico disso tudo, é que a chamada comercial que a Globo utilizou para promover o episódio de ontem (“hoje é o dia da primeira festa no BBB12”) trazia justamente uma frase de efeito do Daniel: “hoje é o dia que a bebida entra, e a verdade sai”. Sair, até sai, Daniel. O difícil é levar para frente.


FERNANDA MONTEIRO É COLUNISTA DO SITE VESTIARIO.ORG
Assim a autora se descreve: "Apaixonada por samba, sushi, sossego e amores impossíveis. Adora escrever onde não é chamada e, para todas os outras dores, existe cerveja."

A culpa é da mulher!?, por Neliane Cunha


Apesar da recusa de submeter-me a programações televisivas do tipo reality, não posso me calar diante do ocorrido num degradante programa imposto há doze anos no Brasil. Ainda sobre tais programas, entendo que estes são instrumentos de detentores de poder (neoliberal, econômico, midiático) para a manutenção de seu status quo, alienando a população que se deixa entreter – peço permissão de Raul Seixas – “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.

Vamos aos fatos. Brasil, janeiro de 2012, BBB – Big Brother Brasil, também sucesso de edição em outros países, porque essa alienação não acontece somente aqui. Festa, regada a muita bebida e exposição do que há de mais fútil em cada participante, para a garantia de audiência. Bêbados ou não, cada um e cada uma apresenta alguma estratégia para aparecer e ficar em evidência. Uma mulher e um homem. Dançam, se beijam e vão para a cama. A diferença desse último detalhe é o objetivo: ela não se aguentava em pé e queria dormir, ele queria sexo. Resultado: ESTUPRO da mulher inconsciente! Filmado e transmitido, para a garantia de audiência.


Dia seguinte, a produção do programa faz uma sabatina de perguntas à participante que não consegue se lembrar, devido seu estado de vulnerabilidade, “pensa” daqui (ah! a audiência)... “pensa” dali (também a audiência)... e decide eliminar o estuprador, pronto, está resolvido!. E a população alienada mais uma vez mostra o seu lado tirano: “ninguém mandou beber tanto”, “ela se ofereceu”, “ela também tem que ser expulsa”, “quando um não quer, dois não fazem”... e tantas outras pérolas que me recuso a detalhar aqui tomaram conta das redes sociais e das rodas de conversa, culpabilizando a mulher pela violência sofrida. Mulher esta que até agora, mais de quarenta horas depois, não sabe que foi violentada com tamanha gravidade. Para quê? E a audiência?

Isso mesmo! Filmaram, transmitiram, ninguém da equipe de produção tomou providência, nem no momento da violência, nem para apurar o crime, crianças assistem tranquilamente uma mulher sendo violada da forma mais perversa que existe e a grande maioria diz que A CULPA É DA MULHER.


A mesma sociedade que aponta o dedo quando essa violação é sofrida nas ruas “porque não usava trajes adequados”, ou quando é o caso de violência doméstica “pois apanha porque gosta e em briga de marido e mulher não se mete a colher”, aceita tranquilamente a pedofilia, retratada em meninas que se casam aos 10, 11 anos “para não virarem vagabundas”, ou que admite a agressão a homossexuais e lésbicas “porque isso é um absurdo”, e que enterra dezenas de milhares de vítimas de abortos clandestinos por ano “porque quem mandou dar?”.

E claro, é melhor apontar o dedo de olhos bem fechados, porque ainda não são suficientes políticas públicas que protejam integralmente meninas e mulheres, que eliminem o sexismo e qualquer forma de preconceito nas escolas, que combatam a violência infantil e doméstica, que promovam a autonomia das mulheres em todos os aspectos, que construam a igualdade de gênero... Porque A CULPA É DA MULHER!

A culpa é da mulher? É fácil culpabilizar quem sempre foi tratada como minoria, com violência e sem oportunidade... Difícil é mudar atitudes. Difícil, mas não impossível. E quando todas e todos reconhecerem sua culpa nesta e noutras histórias, poderemos almejar um mundo melhor e possível para as mulheres.


sábado, 8 de outubro de 2011

Sem censura: a violência contra as mulheres não tem raça, classe ou idade, por Elisangela Karlinski (Pola)


Elisangela Karlinski*
               No último dia 30 de setembro, Brasília foi palco de mais um ato de violência machista, protagonizado por Rendrik Vieira Rodrigues, 35 anos, professor de direito e, portanto, conhecedor das leis dos crimes e das penas. Nem o vasto conhecimento acadêmico do criminoso, nem e sua confortável condição econômica o impediram de cometer o crime, mas as investigações indicam que todas as ações foram premeditadas de forma a aliviar a pena.  A vítima, Suênia Sousa de Farias, que teve sua vida ceifada aos 24 anos de idade, engrossa uma lista que já acumula pelo menos 37 assassinatos de mulheres no DF em 2011, com a mesma motivação. 
               Menos de uma semana depois, um jovem de 18 anos foi detido, suspeito de manter a própria mãe em cárcere privado num apartamento da 911 norte, também em Brasília. Neste mesmo dia (5/10), um adolescente armado invadiu uma escola em Foz do Iguaçu, no Paraná, e atirou contra a namorada. Alegou que estava com ciúmes porque ela iria dançar com outro rapaz numa apresentação teatral. Ambos tem 14 anos! Felizmente, nesse caso, não houve vítimas; o que não minimiza a gravidade do fato, mas nos instiga a refletir sobre o que faz com que o sentimento de posse em relação às mulheres possa ser tão precocemente introjetado pelos homens.
               Enquanto familiares e amigos destas mulheres tentam se recuperar do choque, diversos veículos da imprensa ostentam sua indignação sobre a manifestação da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres (SPM), pedindo a suspensão da veiculação da propaganda da hope - marca de lingerie feminina - protagonizada por Gisele Bündchen. O apresentador Rafael Bastos, afastado do programa CQC por ter atingido “gente que importa”, recebe diversas declarações públicas de apoio, inclusive de intelectuais que abençoam o casamento do preconceito com o humor e que classificam a manifestação do governo como censura. A Ministra Iriny Lopes também é atacada por ter apoiado a ação do sindicato dos metroviários de São Paulo contra um quadro do programa Zorra Total e por ter enviado um pedido ao autor da novela Fina Estampa, da rede globo, sugerindo outra abordagem para o tema da violência doméstica, reproduzida pelo folhetim.
              Muitos ainda se perguntam o que a propaganda da hope, o CQC, o Zorra Total e a novela Fina Estampa tem a ver os crimes que ocorreram em Brasília ou em Foz do Iguaçu; ou com outros milhares de casos de violência que acontecem cotidianamente no Brasil. Ora, esses programas e seus protagonistas usam todos os recursos, materiais e simbólicos, para construir uma imagem estereotipada da mulher, promíscua ou submissa, reforçando o machismo e a violência sexista.
               Se por um lado, a mídia produz e reproduz a objetificação e a mercantilização dos corpos femininos, a exemplo dos programas citados, por outro, culpabiliza as mulheres vitimadas, responsabilizando-as pela violência sofrida, a exemplo do que vimos na cobertura do caso Elisa Samúdio ou nos comentários a respeito do assassinato de Suênia Sousa. “Coitado do cara, tinha um futuro brilhante... ELA estragou a vida dele.” A mesma lógica é utilizada para culpabilizar as mulheres vítimas de estupro, questionando-se a roupa que vestem ou os lugares que freqüentam.
               Dados comprovam que a violência doméstica não tem restrições de raça, classe ou idade; todas as mulheres estão sujeitas a ela e isso independe de seu comportamento ou postura pessoal. A violência é a expressão exacerbada de uma cultura machista e patriarcal, historicamente incorporada ao nosso cotidiano. Ciente desta realidade e do papel que cumpre na sociedade, um sistema midiático que reforça estereótipos e alimenta o ódio contra as mulheres ao invés de denunciar as agressões e seus agentes, é, no mínimo, cúmplice da violência, e precisa ser responsabilizado.           
               No momento em que Brasília realiza as etapas regionais e Distrital da III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, este debate não pode ser preterido. O controle social da mídia e a implementação do Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência, aí incluída a efetiva aplicação da Lei Maria da Penha pelo poder judiciário, devem estar no centro deste debate. Que as mulheres de Brasília e do Brasil mirem-se em seu exemplo e sigam firmes em sua luta pela igualdade, pelo fim da opressão e de toda forma de violência.

*Elisangela Karlinski é socióloga, militante da Marcha Mundial das Mulheres e membro da Coordenação do Setorial de Mulheres do PT-DF.